13 de fevereiro de 2012
Do dia-a-dia
"Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos." - Italo Calvino
Um dia, quem sabe, vais olhar em frente e viver tudo mais.
Um dia, provavelmente, vais deixar o teu emprego, vais comprar um bilhete só de ida e partir. Vais deixar para trás tudo o que construíste, as tuas coisas, as pessoas, o teu mundo, em troca de um mundo novo de oportunidades, de coisas por aprender, de uma vida "0 km"...
Talvez um dia te venhas a arrepender do que fizeste, ou talvez não.
Pode ser que te agrade a sensação de despojamento, de deixar tudo para trás, porque uma partida é sempre uma nova chegada... Mas também pode ser que não gostes, afinal, sabemos muito pouco do futuro.
Um dia, talvez venhas a amar uma mulher e a perceber, enfim, tudo aquilo que nunca tinha feito sentido.
Um dia és capaz de achar que cometeste grandes erros na vida, embora também tenhas alcançado feitos notáveis. Mas é possível que no dia seguinte penses exactamente ao contrário...
Um dia.
Mas no entretannto, o melhor mesmo é estar com a cabeça, o corpo e os dois pés no dia de hoje!!!
11 de fevereiro de 2012
Aritmética essencial
A vida é o resultado da multiplicação de experiências acumuladas , a dividir pela soma de todas as condicionantes que nos rodeiam e nos subtraem àquilo que realmente somos...
10 de fevereiro de 2012
O Orgulho e a Vaidade
"O orgulho é a consciência (certa ou errada) do nosso próprio mérito, a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência do nosso próprio mérito para os outros. Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, pode ser ambas as coisas, vaidoso e orgulhoso, pode ser — pois tal é a natureza humana — vaidoso sem ser orgulhoso. É difícil à primeira vista compreender como podemos ter consciência da evidência do nosso mérito para os outros, sem a consciência do nosso próprio mérito. Se a natureza humana fosse racional, não haveria explicação alguma. Contudo, o homem vive a princípio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a noção de efeito precede, na evolução da mente, a noção de causa interior desse mesmo efeito. O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em acção."
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa
8 de fevereiro de 2012
Comum exótico

Nada naquele dia de sol de inverno o faria prever um encontro imediato de terceiro, quarto e quinto graus, com ascenção ao nirvana, levitação transcendental e picos de delírio, motivada pelo simples facto de ter conhecido ... .
Mas aconteceu.
O edíficio de vários andares que, aos poucos, construíra nas suas duas décadas e meia de existência cedeu e ameaçou ruir à pasagem do furacão que dava pelo nome de .... . De repente, tudo estava em causa, porque o que demora séculos a ser criado pode terminar de repente. As nossas certezas, crenças, convicções, as nossas fundações e pilares, são mais frágeis do que parecem.
... era de um filme diferente. Não era personagem para aquele argumento.
Ela movia-se, e com um mero ajeitar de cabelo era capaz de prococar uma erupção. Era vulcânica, uma inocente provocadora, provocativa, ok, não era inocente...
Com aquele seu jeito exótico de ser, que o conquistava, ela podia pedir o mundo numa bandeja de ouro forrada a diamantes, contando que o pedisse com um sorriso. E assim funcionava com todo mundo, como aquelas pessoas que têm o dom de agradar e fazer boa figura em qualquer situação.
E acontecia.
Quando ela estava, acontecia... magia.
Eram chuvas, e depois sol, e relâmpagos e trovões e depois céu limpo. Era tempestade e bonança.
Mas ele também não era daquele filme. Ele que recusara vender-se, a quem quer que fosse, a que preço fosse, estava agora com dúvidas. Quando sempre pensara que não ia olhar para trás hesitou... e lançou-lhe um olhar. E com este olhar que foi muito mais do que qualquer olhar imaginável por um mortal comum, ele percebeu que tinha errado. Estava irremediavelmente rendido!!
Ele que magoara, que fugira, que evitara, que negara... Estava agora na posição de quem se deixa magoar, de quem vê fugir... Ele descobriu a claustrofobia naquele olhar, no primeiro olhar. E decidiu pagar o preço...
Ele sentiu-se palhaço, sentiu falhanço e dor, mas, faltando inspiração para uma história melhor, deixou-se ficar nesta, que não era suposto ser sua.
E se estranhava esta sua incursão por um mundo onde era estrangeiro, onde se sentia desconfortável, onde queria estar embora não quisesse ter entrado, pior ficou quando descobriu que caíra numa cilada.
O mundo vingava-se.
... não era quem ele vira.
... era qualquer outra coisa, tudo talvez, menos aquilo que ele julgara ver. Sempre que olhara, vira apenas uma coisa imaginada. Uma ilusão de óptica traíra-o.
Quando esfregou os olhos, e viu então ..., tudo começou: chorou e lamentou o seu erro, a má fortuna!!! Não valera a pena ter querido correr riscos, mas também não pensamos neles quando arriscamos.
E, no entanto, no auge do desespero pelo erro cometido, ele não pode deixar de reparar que, apesar de tudo, a situação era irreversível.
Não se pode apagar nada do coração. Pode acrescentar-se, mas nunca retirar... E então, se é certo que desde esse dia, passou a odiá-la um pouquinho mais, não é menos verdade que nem nesse dia, nem jamais, por toda a sua vida, passou a amá-la um pouquinho menos...
30 de junho de 2011
Diamentes cinzentos
"Tudo o que era mau atraía-me: gostava de beber, era preguiçoso, não defendia nenhum deus, nenhuma opinião política, nenhuma ideia, nenhum ideal. Eu estava instalado no vazio, na inexistência, e aceitava isso. Tudo isso fazia de mim uma pessoa desinteressante. Mas eu não queria ser interessante, era muito difícil. A única coisa que desejava verdadeiramente era um espaço doce e nebuloso para viver, e que me deixassem em paz. Por outro lado, quando me embebedava, gritava, tornava-me louco, perdia a cabeça. Os dois comportamentos não se coadunavam. Estava-me nas tintas."
Charles Bukowsi, Mulheres
Charles Bukowsi, Mulheres
15 de junho de 2011
Chocolate amargo
Era bem escusado ressuscitar o blog com dois textos que estão longe de transbordar luz e alegria... Mas se, ao menos, ajudar a minorar o estrago, quero que conste que não, não estou mal, nem triste, nem deprimido, nem soturno. Pelo contrário, estou alegre, tranquilo, em paz, com luz e força e confiança; o que não é exactamente estar feliz e satisfeito (que é melhor nunca estar: leva a um conformismo vazio). Registe-se - porque essa é uma das qualidades de quem escreve (seja um virtuoso, seja um humilde e destalentado escriba como este que vos fala...) - que é importante saber separar o que se escreve, da pessoa que escreve, o que está escrito, daquilo que essa vive ou viveu, por vezes até mesmo o que a pessoa escreve, e o que a pessoa pensa. Quem consegue escrever algo tirado exclusivamente da sua cabeça, se escreve algo triste quando na verdade está alegre, ou algo alegre quando está na fossa, merece, acho eu, outro valor do que o deprimido que escreve algo digno do mais sombrio de Scopenhauer, ou o apaixonado que escreve um soneto digno de Camões - afinal estes têm um suporte, uma inspiração para a sua escrita. E com isto, não vou arranhar a falta de modéstia, porque este assunto de que falo nada tem a ver com a qualidade do que se escreve...
Faço pois, esta introdução, por achar que se justifica: afinal se alguém ler estas merdas e se preocupar minimamente com o estado mental do seu autor poderá facilmente ceder à preocupação, quando lê textos assim, menos animados. Por isso, tranquilidade.... Como se sabe: "O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente"
De resto, como eu gosto de dizer, também penso que só pode estar realmente bem, em paz, e gozar a alegria da vida, quem esteja ao mesmo tempo consciente de toda a obscuridade que a envolve. Claro que é possível ser feliz de outra forma: mas será uma felicidade oca, pouco esclarecida, iludida, ou ingénua... whatever. Já dizia o outro:"optimista é um pessimista mal informado". Eu nunca na minha vida fui pessimista, felizmente... Mas também há muito deixei de ser totalmente optimista: foi no momento em que percebi que quem é autêntica e incondicionalmente optimista é, na verdade, uma pessoa intrisecamente triste, um conformado com o seu fado, que aceitará com benevolência e sem luta ou resistência tudo aquilo que a vida lhe trouxer (o que se aproxima muito à nossa ideia do "português tipo" que, paradoxalmente, é um pessimista), e, se for preciso, responde à adversidade com um sorriso parvo... O optimista extremo nunca lutará por nada, nunca quererá mudar nada, não contribuirá nunca para o progresso ou para o que quer que seja porque estará sempre feliz e satisfeito com o seu destino (por grande m**** que seja), quietinho no seu canto de optimismo, falta-lhe garra, faltam-lhe talvez mesmo as "ganas de vivir". Não é isso que eu quero. Por isso prefiro nunca, mas nunca, aceitar a ideia de que estou 100% feliz, realizado e satisfeito (e tantas vezes me apetece, juro) porque é uma ideia perigosa, e eu acho que devemos sempre a ambição de querer buscar sempre algo mais...
Dizia, por isso, e para terminar, que só há duas maneira de estar em paz: ou a via inconsciente, do optimista inveterado (chamemos-lhe o "indíviduo A"); ou a via consciente, do "indíviduo B", o que sabe aproveitar a vida porque tem consciência de que o mundo é finito, cheio de coisas terríveis, as pessoas são falíveis e têm muitos defeitos e imperfeições... (Mas claro que nem tudo é negro, e por isso é possível ser, ou estar, feliz... "-Apesar de tudo, a vida é bela!!", assim diria o "indivíduo B"). Diria mesmo que o "indíviduo A" acredita em algo, seja religião, destino ou sorte; enquanto o "indíviduo B" não acredita em milagres, mas acredita, e confia, em si, sem mais.
Ah, mania de pôr tudo em causa!!! Mania de ousar pensar!!! Mas é sempre bom: mais que não seja para nos lembrarmos que a cabeça não é apenas o suporte das orelhas...
Mas enfim, não era esta a ideia do post.
Queria apenas, sem outras pretensões ou pretensiosismos, falar de como é difícil crescer.
Quando somos miúdos, ensinam-nos que as dores de crescimento são brutais. É um facto.
O que não nos ensinam, é que estas dores surgem das mais variadas formas, e ao longo de toda a vida. Nem nos ensinam que as que temos em criança são, apesar de tudo, as menos dolorosas, porque ninguém sabe nem tem, naquela altura, noção do que significa realmente esta caminhada imparável do relógio, ou a inevitabilidade sagrada do acto de crescer...
Só depois, e imagino que cada vez a situação piore mais com o passar dos anos, é que nos apercebemos que o tempo vai passando, os dias sumindo dentro das semanas, nos anos, à mesma velocidade dos pacotes de arroz e de massa vão desaparecendo dos armários...
E, de repente, já foram x anos...
E, de repente, não seremos crianças outra vez...
E, do nada, os tempos de faculdade, em que tudo era tão fácil... acabaram.
E não é que, de momento, quiséssemos ser crianças outra vez, nem mesmo voltar à faculdade: é só a ideia de ser inevitável, o sentimento de perda, de algo que sabemos que irremediavelmente "foi" e nunca voltará, e ponto final. O Homem tem dificuldades em lidar com tudo o que implique definitividade, ou perda (de facto, temos uma notável incapacidade para reagir à perda). E é isso com que somos confrontados todos os dias: aquele dia não volta, e é como se perdessemos qualquer coisa sem sabemos bem o quê...
(E nestas alturas, voltando ao assunto inicial, arrisco a dizer que será bem pior para o indivíduo "A", que não tinha noção alguma das coisas, do que para o "B", que sempre esteve ciente...)
Estes são assuntos de uma tal complexidade que não vale a pena discorrer sobre eles (menos ainda eu que sei pouco mais que nada de filosofias e psicologias). Não poderemos explicar... Nem compreencder.
Pegando na imagem de Freud e do "iceberg", se apenas 10% de nós é consciente e acessível, está por assim dizer, à vista, como poderemos algum dia entender os nossos mistérios e coisas que não sabemos explicar? Aliás,como poderemos algum dia saber exactamente o que somos, conhecendo apenas 10%? E de resto, como temos coragem de dizer "conheço bem o fulano Y e ele é assim, ou assado, se dele conhecemos, na melhor das hipóteses um 6-7%, se tanto... De uma coisa estou absolutamente convicto: não será com estes "nossos 10% de nós" que vamos responder a estar questões que têm tanto de psicológico como de metafísico.
Freud dizia mais, ele dizia ainda que certas artes (falava da literatura, mas seguramente o mesmo se aplica à música ou ao cinema) têm a capacidade/mérito de nos tocar o mais perto possível do sub-consciente. Acho que a experiência o comprova totalmente, não é? Somos (uns mais, outros menos, e todos de maneiras diferente) tocados por estas arte de uma forma muito peculiar, e íntima, e particular... E a música (ou um livro, ou um filme) é mais subjectiva do que se pode pensar, porque tocará de forma diferente cada um... Porque tocará cada um nos tais 90% de desconhecido, a nossa parte mais natural, não socializada nem domesticada.
O que eu sei é que só quem compreende determinadas pressupostos essenciais do "jogo", como este, é que consegue efectivamente tirar o melhor proveito da vida. Somos imperfeitos, temos defeitos, etç etç etç... (a lenga-lenga é extensa, maçadora, e dispensável) o que resta é relativizar: daqui a 1 ano lembramo-nos bem de menos de 1/5 daquilo que vivemos hoje... Daqui a 10 anos, talvez de 2%. Daqui a 100...
Ando aqui em círculos , aparentemente perdido, sem saber bem o que digo... Ia falar sobre as dificuldades com que um gajo se depara ao "crescer", e afinal, não escrevi sobre nada, nem escrevi nada de jeito. O texto vai longo e não posso alongá-lo mais sob pensa de ficar irremediavelmente intragável (se já não for).
Deixo por isso, uma breve mensagem sobre aquilo que tinha pensado: é difícil crescer quando não sabes que caminhos seguir. Com 20 e poucos anos já não se podem cometer erros (ou pelo menos, tantos) como com 16... E, no entanto, estamos aqui sem saber muito bem o que fazemos aqui, sem entender bem a respeito da vida. Na maioria das vezes, nem quermos saber mesmo: se há coisa que todos sabem ou pressentem é que nada é eterno, e que para a frente de certeza que as merdas não ficam mais fáceis. Ou pelo menos nós sabemos, ou pressentimos, que não vamos ter cabelo, e estar sem barriga a vida toda... Que se temos 25, não voltaremos a ter 24...
Depois, é a visão do "longo túnel"... ou do caminho de ferro à nossa frente. Que é quando olhamos e, se quisermos (com mais ou menos esforço), como que vemos o nosso "eu" em progressão - a subir no emprego, a trabalhar mais e mais, a ter casa, mulher, filhos, carro, trabalho, roupa lavada, trabalho, pré-reforma, trabalho, e, de repente, um gajo de 65 anos que passou a vida a olhar para amanhã e... Depois, um gajo não sabe se trabalha mais e vive menos, para acautelar o futuro, se vive mais e trabalha menos, para garantir o presente... Depois, é a Troika, e os troianos de todos os partido... E os amigos, que naturalmente se dispersam, a estrutura toda que desaba lentamente, e começa a fazer sentido que "os adultos" raramente tenham mais que meia dúzia -nem tanto- de verdadeiros amigos, quando ainda à pouco pensávamos que iríamos ter tantos... (Sabes bem que isto nao é o facebook!!!). Depois, são as dúvidas. É olhar e pensar: "as coisas até não correm nada mal... para que esta insatisfação? essa ideia persistente de que não te podes render, conformar, aceitar que tudo está perfeitamente bem???", E depois, é viver para depois contar... Porque francamente, ainda nao escrevi esse capítulo.
Só sei que até prova em contrário, só temos esta vida, e, não sei bem porquê, vem-me à memória uma frase, tola, despropositada e sem sentido: "Gosto muito de batatas, mas não é por isso que vou comer batatas os dias todos até ao fim da vida"; e eu, que sou tolo, despropositado e sem sentido, não pude deixar de escrevê-la.
Finalmente, e tão paradoxalmente, é pensar: "está um tempo tão bom lá fora, e tu aqui fechado há 45 minutos a escrever estas relexões desenxaibidas? Vamos embora!!!".
Afinal, (exceptuando, lá está: o passar do tempo, e uma mão cheia de coisas) nada na vida é definitivo. Afortunados os que aprenderam a lição cedo...
Faço pois, esta introdução, por achar que se justifica: afinal se alguém ler estas merdas e se preocupar minimamente com o estado mental do seu autor poderá facilmente ceder à preocupação, quando lê textos assim, menos animados. Por isso, tranquilidade.... Como se sabe: "O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente"
De resto, como eu gosto de dizer, também penso que só pode estar realmente bem, em paz, e gozar a alegria da vida, quem esteja ao mesmo tempo consciente de toda a obscuridade que a envolve. Claro que é possível ser feliz de outra forma: mas será uma felicidade oca, pouco esclarecida, iludida, ou ingénua... whatever. Já dizia o outro:"optimista é um pessimista mal informado". Eu nunca na minha vida fui pessimista, felizmente... Mas também há muito deixei de ser totalmente optimista: foi no momento em que percebi que quem é autêntica e incondicionalmente optimista é, na verdade, uma pessoa intrisecamente triste, um conformado com o seu fado, que aceitará com benevolência e sem luta ou resistência tudo aquilo que a vida lhe trouxer (o que se aproxima muito à nossa ideia do "português tipo" que, paradoxalmente, é um pessimista), e, se for preciso, responde à adversidade com um sorriso parvo... O optimista extremo nunca lutará por nada, nunca quererá mudar nada, não contribuirá nunca para o progresso ou para o que quer que seja porque estará sempre feliz e satisfeito com o seu destino (por grande m**** que seja), quietinho no seu canto de optimismo, falta-lhe garra, faltam-lhe talvez mesmo as "ganas de vivir". Não é isso que eu quero. Por isso prefiro nunca, mas nunca, aceitar a ideia de que estou 100% feliz, realizado e satisfeito (e tantas vezes me apetece, juro) porque é uma ideia perigosa, e eu acho que devemos sempre a ambição de querer buscar sempre algo mais...
Dizia, por isso, e para terminar, que só há duas maneira de estar em paz: ou a via inconsciente, do optimista inveterado (chamemos-lhe o "indíviduo A"); ou a via consciente, do "indíviduo B", o que sabe aproveitar a vida porque tem consciência de que o mundo é finito, cheio de coisas terríveis, as pessoas são falíveis e têm muitos defeitos e imperfeições... (Mas claro que nem tudo é negro, e por isso é possível ser, ou estar, feliz... "-Apesar de tudo, a vida é bela!!", assim diria o "indivíduo B"). Diria mesmo que o "indíviduo A" acredita em algo, seja religião, destino ou sorte; enquanto o "indíviduo B" não acredita em milagres, mas acredita, e confia, em si, sem mais.
Ah, mania de pôr tudo em causa!!! Mania de ousar pensar!!! Mas é sempre bom: mais que não seja para nos lembrarmos que a cabeça não é apenas o suporte das orelhas...
Mas enfim, não era esta a ideia do post.
Queria apenas, sem outras pretensões ou pretensiosismos, falar de como é difícil crescer.
Quando somos miúdos, ensinam-nos que as dores de crescimento são brutais. É um facto.
O que não nos ensinam, é que estas dores surgem das mais variadas formas, e ao longo de toda a vida. Nem nos ensinam que as que temos em criança são, apesar de tudo, as menos dolorosas, porque ninguém sabe nem tem, naquela altura, noção do que significa realmente esta caminhada imparável do relógio, ou a inevitabilidade sagrada do acto de crescer...
Só depois, e imagino que cada vez a situação piore mais com o passar dos anos, é que nos apercebemos que o tempo vai passando, os dias sumindo dentro das semanas, nos anos, à mesma velocidade dos pacotes de arroz e de massa vão desaparecendo dos armários...
E, de repente, já foram x anos...
E, de repente, não seremos crianças outra vez...
E, do nada, os tempos de faculdade, em que tudo era tão fácil... acabaram.
E não é que, de momento, quiséssemos ser crianças outra vez, nem mesmo voltar à faculdade: é só a ideia de ser inevitável, o sentimento de perda, de algo que sabemos que irremediavelmente "foi" e nunca voltará, e ponto final. O Homem tem dificuldades em lidar com tudo o que implique definitividade, ou perda (de facto, temos uma notável incapacidade para reagir à perda). E é isso com que somos confrontados todos os dias: aquele dia não volta, e é como se perdessemos qualquer coisa sem sabemos bem o quê...
(E nestas alturas, voltando ao assunto inicial, arrisco a dizer que será bem pior para o indivíduo "A", que não tinha noção alguma das coisas, do que para o "B", que sempre esteve ciente...)
Estes são assuntos de uma tal complexidade que não vale a pena discorrer sobre eles (menos ainda eu que sei pouco mais que nada de filosofias e psicologias). Não poderemos explicar... Nem compreencder.
Pegando na imagem de Freud e do "iceberg", se apenas 10% de nós é consciente e acessível, está por assim dizer, à vista, como poderemos algum dia entender os nossos mistérios e coisas que não sabemos explicar? Aliás,como poderemos algum dia saber exactamente o que somos, conhecendo apenas 10%? E de resto, como temos coragem de dizer "conheço bem o fulano Y e ele é assim, ou assado, se dele conhecemos, na melhor das hipóteses um 6-7%, se tanto... De uma coisa estou absolutamente convicto: não será com estes "nossos 10% de nós" que vamos responder a estar questões que têm tanto de psicológico como de metafísico.
Freud dizia mais, ele dizia ainda que certas artes (falava da literatura, mas seguramente o mesmo se aplica à música ou ao cinema) têm a capacidade/mérito de nos tocar o mais perto possível do sub-consciente. Acho que a experiência o comprova totalmente, não é? Somos (uns mais, outros menos, e todos de maneiras diferente) tocados por estas arte de uma forma muito peculiar, e íntima, e particular... E a música (ou um livro, ou um filme) é mais subjectiva do que se pode pensar, porque tocará de forma diferente cada um... Porque tocará cada um nos tais 90% de desconhecido, a nossa parte mais natural, não socializada nem domesticada.
O que eu sei é que só quem compreende determinadas pressupostos essenciais do "jogo", como este, é que consegue efectivamente tirar o melhor proveito da vida. Somos imperfeitos, temos defeitos, etç etç etç... (a lenga-lenga é extensa, maçadora, e dispensável) o que resta é relativizar: daqui a 1 ano lembramo-nos bem de menos de 1/5 daquilo que vivemos hoje... Daqui a 10 anos, talvez de 2%. Daqui a 100...
Ando aqui em círculos , aparentemente perdido, sem saber bem o que digo... Ia falar sobre as dificuldades com que um gajo se depara ao "crescer", e afinal, não escrevi sobre nada, nem escrevi nada de jeito. O texto vai longo e não posso alongá-lo mais sob pensa de ficar irremediavelmente intragável (se já não for).
Deixo por isso, uma breve mensagem sobre aquilo que tinha pensado: é difícil crescer quando não sabes que caminhos seguir. Com 20 e poucos anos já não se podem cometer erros (ou pelo menos, tantos) como com 16... E, no entanto, estamos aqui sem saber muito bem o que fazemos aqui, sem entender bem a respeito da vida. Na maioria das vezes, nem quermos saber mesmo: se há coisa que todos sabem ou pressentem é que nada é eterno, e que para a frente de certeza que as merdas não ficam mais fáceis. Ou pelo menos nós sabemos, ou pressentimos, que não vamos ter cabelo, e estar sem barriga a vida toda... Que se temos 25, não voltaremos a ter 24...
Depois, é a visão do "longo túnel"... ou do caminho de ferro à nossa frente. Que é quando olhamos e, se quisermos (com mais ou menos esforço), como que vemos o nosso "eu" em progressão - a subir no emprego, a trabalhar mais e mais, a ter casa, mulher, filhos, carro, trabalho, roupa lavada, trabalho, pré-reforma, trabalho, e, de repente, um gajo de 65 anos que passou a vida a olhar para amanhã e... Depois, um gajo não sabe se trabalha mais e vive menos, para acautelar o futuro, se vive mais e trabalha menos, para garantir o presente... Depois, é a Troika, e os troianos de todos os partido... E os amigos, que naturalmente se dispersam, a estrutura toda que desaba lentamente, e começa a fazer sentido que "os adultos" raramente tenham mais que meia dúzia -nem tanto- de verdadeiros amigos, quando ainda à pouco pensávamos que iríamos ter tantos... (Sabes bem que isto nao é o facebook!!!). Depois, são as dúvidas. É olhar e pensar: "as coisas até não correm nada mal... para que esta insatisfação? essa ideia persistente de que não te podes render, conformar, aceitar que tudo está perfeitamente bem???", E depois, é viver para depois contar... Porque francamente, ainda nao escrevi esse capítulo.
Só sei que até prova em contrário, só temos esta vida, e, não sei bem porquê, vem-me à memória uma frase, tola, despropositada e sem sentido: "Gosto muito de batatas, mas não é por isso que vou comer batatas os dias todos até ao fim da vida"; e eu, que sou tolo, despropositado e sem sentido, não pude deixar de escrevê-la.
Finalmente, e tão paradoxalmente, é pensar: "está um tempo tão bom lá fora, e tu aqui fechado há 45 minutos a escrever estas relexões desenxaibidas? Vamos embora!!!".
Afinal, (exceptuando, lá está: o passar do tempo, e uma mão cheia de coisas) nada na vida é definitivo. Afortunados os que aprenderam a lição cedo...
12 de junho de 2011
Uma análise falhada.
O seu único vício era analisar tudo.
Saía de casa sem guarda-chuva, analisando as probabilidades de chover ao fim da tarde. Pegava no carr0 obcecado com as probabilidades de apanhar uma fila na vci e chegar tarde ao emprego; e sabia que o mais certo era ouvir um sermão do chefe se isso acontecesse.
A vida dele era provavelmente boa, mas, de tão obstinado em prosseguir com aquela felicidade, dava consigo a pensar várias vezes na hipótese de a mulher o andar a trair com o vizinho do 4 esquerdo, e nas assustadoras probabilidades de o filho andar metido nas drogas...
Ponderava seriamente mudar de emprego, mas, pesando os prós e os contras, sabia que dificilmente mudaria para melhor e conformava-se... Ah, se ao menos tivesse ido para a política!!!
No entanto dormia bem quando chegava a casa e se enfiava nos lençóis depois de comer um jantar apressado, e sabia que era altamente improvável ser acordado às 4 da manhã com a notícia de que tinha ganho o euromilhões.
Morreu durante o sono. Ataque cardíaco.
Tinha-se esquecido completamente das análises ao sangue...
Saía de casa sem guarda-chuva, analisando as probabilidades de chover ao fim da tarde. Pegava no carr0 obcecado com as probabilidades de apanhar uma fila na vci e chegar tarde ao emprego; e sabia que o mais certo era ouvir um sermão do chefe se isso acontecesse.
A vida dele era provavelmente boa, mas, de tão obstinado em prosseguir com aquela felicidade, dava consigo a pensar várias vezes na hipótese de a mulher o andar a trair com o vizinho do 4 esquerdo, e nas assustadoras probabilidades de o filho andar metido nas drogas...
Ponderava seriamente mudar de emprego, mas, pesando os prós e os contras, sabia que dificilmente mudaria para melhor e conformava-se... Ah, se ao menos tivesse ido para a política!!!
No entanto dormia bem quando chegava a casa e se enfiava nos lençóis depois de comer um jantar apressado, e sabia que era altamente improvável ser acordado às 4 da manhã com a notícia de que tinha ganho o euromilhões.
Morreu durante o sono. Ataque cardíaco.
Tinha-se esquecido completamente das análises ao sangue...
Reanimar
E, de repente, vários séculos depois, enquanto abria um hotmail com 37 emailes por ler, reparei que tenho saudades do meu ex-falecido blog... Vamos reactivar isto. Em breve.
24 de abril de 2009
Ligeiro apontamento
Há licenciados em Direito que pensam que existem contratos de Marchandising (merchandising), que chamam Rossevelt a um antigo presidente americano e que falam de documentos com força provatória...
Haverá por aí médicos a falar em halergias?
Suponho que sim... :o
Isto é a crise!!!
Haverá por aí médicos a falar em halergias?
Suponho que sim... :o
Isto é a crise!!!
20 de março de 2009
Viver sempre em frente (Benjamin Button não existe...)

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada".
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento".
Clarice Lispector
Vivemos todos com algo em comum - A própria vida.
Todos nascemos, crescemos, aprendemos, vivemos e enfim, partimos... Todos os dias são iguais para toda a gente: e é de manhã, é de manhã para todos, e está chuva também, aliás: o sol quando nasce é para todos.
E assim vamos realizando o mais longo e incrível trabalho que algum dia realizaremos - viver.
Concordando com Clarice, para a minha vida escolhi um rumo que procure combinar da melhor maneira que posso a aprendizagem do passado, a incerteza do futuro e a urgência do presente.
Vamos passando pela vida como um carro vassoura pela rua...
Enquanto este arrasta consigo aquilo que consegue recolher da rua, indistintamente, quer seja lixo ou algo valioso, nós levaremos para a frente, connosco, também aquilo que conseguimos retirar da vida, quer sejam coisas boas ou más. De preferência, levaremos connosco as coisas boas. Das más, assim que retirarmo aquilo que possa ter de útil, devemo-nos livrar quanto antes porque o espaço é curto (o tempo nem se fala) e tem de ser aproveitado da melhor e mais inteligente maneira possível.
Se tudo se resolvesse apenas assim, nem estariamos mal... Mas claro que depois há sempre inúmeras excepções, imprevistos, proibições e condicionalimos. A vida é fértil em arranjar "problemazinhos" que de repente, bloqueiam totalmente o "sistema" não é?
Mas aí vem um segundo aspecto - a mudança!
É sempre possível mudar. É a melhor arma para enfrentar muitos problemas; se não mudássemos, a vida seria sempre igual, ou parecida... De que adiantaria viver?
Viver é conhecer a novidade a cada instante, é aprender, é mudar.
Não vou tão longe como Fernando Pessoa quando dizia que aquele que acordava num dia não era a mesma pessoa que se deitara na véspera. Sim... Estamos sempre a mudar, mas continuamos iguais, os mesmos (a velha ideia de Sartre: "Eu mudo para continuar o mesmo")... mas diferentes.
Raramente podemos definir ao longo da nossa vida as datas em que mudamos... As mudanças na nossa vida são constantes, e apenas uma pequeníssima, insignificante parte delas são realmente repentinas.
Deste "strogonoff" filosófico que para aqui cozinhei, devo concluir naturalmente, que viver vale a pena, se soubermos realmente entender e estar receptivos à vida... Caso contrário, não: quem não se sente preparado para esse desafio é uma pessoa infeliz, porque será como um Benjamim Button que, além de idoso na aparência e no pensamento, tivesse nascido já meio morto e assim continuasse por toda a sua vida, "fechando-se" perante esta!!!!
Não sei se passei muito bem a mensagem, porque nem sei que mensagem queria passar.
Beijos, Abraços e muitos palhaços!!!
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